O TRABALHO HUMANO E O DIA DO SENHOR – PE. FABIO SENNA

PADRE FABIONos últimos tempos da história do cristianismo, observa-se um certo laxismo ou mesmo alguma indiferença em relação ao Dia do Senhor, nossa cultura extremamente voltada para o seu próprio “bem-estar” e para o lucro excessivo, esquece-se da ordem que o próprio Deus deu ao mundo quando Ele o criou. O Senhor Deus trabalhou durante seis dias na obra da criação, mas no sétimo Ele descansou da obra da criação.

Nossa sociedade, cada vez mais, parece negligenciar  esta  ordem  imposta  por  Deus,

causando um verdadeiro desequilíbrio na vida humana e na vida do mundo. Hoje, com muita transparência, constata-se uma humanidade doente, uma sociedade doente, mas se tem a impressão que ninguém se dá conta ou não se quer enxergar em profundidade uma das verdadeiras raízes dos grandes problemas sociais.

Constata-se, que o grande Dia do Senhor, o Domingo, não é mais um dia de descanso, de oração, de restauração das forças, de lazer, de encontro, mas simplesmente mais um dia de grande comercialização, de trabalho, de muito trabalho. E, o que entristece mais ainda, quando se averigua que tudo isso acontece com o a colaboração, o consentimento e a participação de muitos cristãos ou que se dizem cristãos. Parece que Deus não tem mais nada a lhes dizer. Deus emudeceu-se ou tornamo-nos todos surdos? Tudo indica que, por nossa própria vontade, nos tornamos surdos. Uma grande questão social fica em evidência!

A Igreja desde mais de um século vem ocupando-se mais atentamente da questão social. Há exatos 124 anos atrás se dava início à Doutrina Social da Igreja com a publicação da Carta Encíclica Rerum Novarum (sobre Coisas novas) de Leão XIII, em 1891, que tratava sobretudo da questão operária, devido à situação degradante em que se encontravam os operários após o evento da Revolução Industrial. E, desde então, a Igreja não deixou de emitir, ao longo deste período, documentos verdadeiramente proféticos ora atualizando este primeiro documento ora abrangendo novos aspectos da mesma questão social.

A relação entre trabalho e capital não raro apresenta traços de conflituosidade, que assume novas características com o mudar dos contextos sociais e econômicos. A doutrina social tem enfrentado as relações entre trabalho e capital, salientando seja a prioridade do primeiro sobre o segundo, seja a complementariedade que deve haver entre capital e trabalho. E, acima destes dois deve-se entender que “o principal recurso” e o “fator decisivo” nas mãos do homem é o próprio homem com toda sua inalienável dignidade.

A consciência da transitoriedade da “figura deste mundo” (cf. 1Cor 7,31) não isenta de nenhum empenho histórico, muito menos do trabalho (cf. 2Ts 3,7-15), que é parte integrante da condição humana, mesmo não sendo a única razão de sua vida. O próprio Jesus coloca sua missão como trabalho:“meu Pai trabalha até agora e eu também trabalho”(Jo 5,17); e os seus discípulos como operários na messe do Senhor (cf. Mt 9,37-38).

O trabalho representa uma dimensão fundamental (mas não a única!) da existência humana como participação na obra não só da criação, mas também da redenção. “Com o seu trabalho e a sua laboriosidade, o homem, partícipe da arte e da sabedoria divina, torna mais bela a criação, o cosmo já ordenado pelo Pai”(Santo Irineu de Lião).

Desta forma, o trabalho pertence à condição originária do homem e precede a sua queda por causa do pecado de Adão e Eva; não é, portanto, nem punição nem maldição como erroneamente, por tanto tempo, foi difundido no meio católico.

Há que se frisar, entretanto e, portanto, que o trabalho é para o homem e não o homem para o trabalho. Daí, decorre o direito ao repouso festivo. Tendo Deus“terminado no sétimo dia a obra que tinha feito, descansou de seu trabalho”(Gn 2,2): também os homens, criados à Sua imagem, devem gozar de suficiente repouso e tempo livre que lhes permita cuidar da vida familiar, cultural, social e religiosa. Para tanto, contribui a instituição do dia do Senhor: o Domingo. Os fiéis, durante o Domingo e nos demais dias santos de guarda, devem abster-se de trabalhos ou atividades que impedem o culto devido a Deus, a alegria própria do dia do Senhor, a prática das obras de misericórdia e o descanso conveniente do espírito e do corpo. De modo que não devem criar hábitos prejudiciais à religião, à manifestação pública de sua fé, à vida de família e à saúde física e espiritual. Todas essas são dimensões importantes e necessárias que integram a constituição de qualquer ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus, com toda a dignidade, de forma sadia e equilibrada.

É como disse, Paulo VI,“assim poderá realizar-se em plenitude o verdadeiro desenvolvimento, que é, para todos e para cada um, a passagem de condições menos humanas a condições mais humanas”. Que vise o desenvolvimento “de todos os homens e do homem todo”, integral [cf. Populorum Progressio (Sobre o desenvolvimento dos Povos), de 1967] .

Peçamos ao nosso Senhor, Cristo Jesus, por intercessão de São José Operário – patrono de todos os trabalhadores – que conceda à comunidade humana chegar à perfeição do amor e do respeito mútuo, querida por Deus, nosso Pai. Amém.

Pe. Fábio F. Senna

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