PURIFIQUEM-SE DO VELHO FERMENTO – SEBASTIÃO DE M. VIANA JUNIOR

DSC02347Você deve ter percebido que as celebrações da Páscoa e do Tempo Pascal são profundamente batismais.

Haja vista, por exemplo, a grande Vigília do Sábado Santo: nós, com velas acesas nas mãos, sempre renunciamos a Satanás e às suas obras de sedução que levam ao pecado.

Que obras são essas? O caminho que realizamos na Quaresma serve justamente para identificarmos o que, de fato, deve ser renunciado por nós por toda a vida, a fim de que vivamos de modo novo uma vida nova em Cristo, crucificado e ressuscitado. As indicações da Igreja para viver o jejum, a esmola-caridade e a oração não têm sentido dissociadas dessa verdade.

Percorrido o caminho do deserto, no qual você se vê num ambiente de morte, desolação, solidão, fome, privação… depois de tudo isso, você passa a perceber o que é realmente essencial e importante.

Se a Quaresma não serviu para nos desfazermos de nossos excessos, sem medo de dizer, ela não serviu para nada; foi um tempo a mais, dias seguidos uns dos outros sem serem realmente vividos como deveriam. Você deve ter feito suas penitências quaresmais. Elas serviram para você perceber o que deve ser renunciado de verdade? Não! Então, elas não lhe ajudaram muito, suponho. Foram privação pura e simplesmente.

Se, pelo contrário, você pôde, graças às penitências que praticou, ver o que é realmente importante e necessário para uma vida santa, então todo e qualquer sacrifício valeu muito a pena. Estou certo ou não? Por que estou falando nisso? Ora, em abril, vivemos o tempo pascal, o tempo da alegria, da Ressurreição, da vida que vence o pecado e a morte; diferente neste aspecto do quaresmal, que é sóbrio demais, convida à penitência, aos sacrifícios. No entanto, ambos têm algo em comum: exigem de nós uma PURIFICAÇÃO.

A verdade do que afirmamos, São Paulo no-la demonstra em 1Cor 5,7: “Purifiquem-se do velho fermento, para serem uma massa nova, já que vocês são ázimos. Pois o Cristo, nossa páscoa, foi imolado.” O Pe. Raniero Cantalamessa nos lembra: “a linguagem usada pelo Apóstolo remete-nos para um costume hebraico: na véspera da Páscoa, cada mulher hebreia, obedecendo  à  prescrição  de  Êx  12,15,  revistava  toda  a casa, examinando todos os cantos da casa à luz da lamparina, para procurar e fazer desaparecer até o menor fragmento de pão fermentado, para que se pudesse, depois, celebrar a festa unicamente com pão ázimo.” O Pe. Raniero diz ainda que “algo desse costume passou também para a tradição cristã; especialmente nas roças havia o costume, ao menos até alguns anos, de fazer a grande limpeza pascal, eliminando tudo o que havia de roto ou de velho entre as louças e as outras coisas da casa, de modo que na Páscoa tudo fosse novo e inteiro.” Nisso reside o nexo que une a purificação da Quaresma e da Páscoa.

O primeiro tempo serve para que identifiquemos, à luz da Palavra de nosso Senhor, o que está velho, roto, quebrado etc. (se as mulheres hebreias conseguiam encontrar vestígios de pão fermentado com a luz de uma lamparina, imaginem vocês o que não seremos capazes de encontrar iluminados por Cristo, luz do mundo!); no tempo da Páscoa, o que foi limpo deve permanecer limpo e novo, como renovado também deve ser o propósito de não mais acumularmos sujeira no que é de Deus, isto é, no nosso coração. Que símbolo bonito, não? “O fiel deve percorrer também ele a casa interior do seu coração, para destruir tudo o que pertence ao velho regime do pecado e da corrupção, podendo assim celebrar a festa ‘com ázimos de pureza e de verdade’, isto é, em pureza e santidade, já sem nenhum vínculo com o pecado.” Enfim, para que você possa viver uma vida nova, ser “nova massa”, você deverá constantemente “se purificar.” Se você nunca experimentou fazer uma faxina para celebrar a Páscoa com tudo novo, que tal começar uma?

Geralmente, as casas sempre possuem um “quartinho de despejo”, lá nos fundos, escondido, onde são jogadas coisas velhas, sem uso, das quais não queremos nos desfazer por pensar que “um dia poderemos precisar do que está lá”.

É um bom lugar para começar a limpeza. Do mesmo modo, geralmente, os corações possuem um espaço reservado para acumular mágoas, tristezas, rancores, ciúmes, inveja    etc. Pode começar a limpar daí. Eu garanto: você nunca vai querer nada disso. Ah, se precisar, nosso Senhor costuma ajudar nessas faxinas; não só ilumina, mas também elimina o que não presta, se você permite. Boa Páscoa, um Santo Tempo Pascal… e boa limpeza!

 

 
Sebastião de M. Viana Júnior

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